Expedição Cogerh – Um mergulho nas áreas de divisa ameaçadas pelo litígio com o Piauí – O terceiro dia

Expedição Cogerh – um mergulho nas áreas de divisa ameaçadas pelo litígio com o Piauí

Expedição Cogerh – Um mergulho nas áreas de divisa ameaçadas pelo litígio com o Piauí – O segundo dia

O terceiro dia de expedição foi também um dia mudança de paisagem. Saíamos da aridez dos Sertões Crateús rumo à Serra da Ibiapaba. A altitude, as temperaturas mais amenas e o verde davam a impressão de que chegávamos a outro Estado. Mesmo assim, a primeira comunidade visitada – Lagoa do Carnaubal, em Viçosa do Ceará, de tão próxima ao Piauí, não conserva o frescor da serra. Localidade diminuta próxima à divisa é formada por casas dispersas, e não propriamente por um núcleo urbano. O sentimento da maioria dos populares consultados deu mostras de saber da disputa entre Ceará e Piauí. “Uns homens do Exército passaram por aqui tirando retrato”, revela Nivaldo Souza, estudante e filho de um comerciante local. “Eles fizeram perguntas sobre escola, posto de saúde, essas coisas”. O jovem se referia, mesmo sem saber, à comissão do Exército que realiza os estudos determinados pela Suprema Corte para basear a decisão judicial. Na sabedoria dos seus 75 anos, Sebastião Gomes da Silva resumiu a questão: “Meu filho, eu já nesta idade na Lagoa do Carnaubal! Você imagine a dificuldade de mudar tudo quanto é documento. Essa história não tem cabimento, não. Uns por aí querem, mas nós aqui mesmo, não”, garantiu firme o idoso, que é aposentado. “Olhe, todos os nossos negócios aqui são feitos em Viçosa. É médico, é comércio, tudo. Pra quê a gente mudar pro Piauí!?”, completa dona Maria de Jesus, esposa de seu Sebastião.

Romaria

Desde o início dos anos 2000, Lagoa do Carnaubal passou a ser mais um centro de romaria no Ceará. Em 1925, o jovem Cesário Luiz dos Santos foi barbaramente assassinado. Ele havia sido acusado (injustamente) de haver cometido um outro crime. No local da sua morte, foi erguida a “Cruz do Finado Cesário”. O local virou roteiro para turismo religioso devido ao grande número de depoimentos de supostas graças e favores alcançados por intermédio do jovem. As romarias acontecem sempre no Dia de Finados, movimentando a pequena Lagoa do Carnaubal.

Santa Maria

Osvaldo Gomes da Silva, presidente da Associação Comunitária de Santa Maria do Canto, ainda em Viçosa, se orgulha de ter conquistado muitas melhorias para o lugar. “Depois que fundamos essa associação, a gente já trouxe energia elétrica (Projeto São José), cisternas, calçamento… muita coisa”, revela. “Aqui a gente não precisa de nada do Piauí. Pelo contrário, eles vêm de Cocal – cidade piauiense mais próxima – a toda hora atrás das coisas aqui na Viçosa”. A comunidade de Santa Maria fica no sopé da serra, também no município de Viçosa do Ceará. Os vários riachos que nascem na região garantem a produção farta de banana, jaca, abacate, manga e muitas outras frutas. “Aqui também a gente tem uma piscina comunitária, que garante o lazer da população, principalmente nos fins de semana”, conta orgulhoso, seu Osvaldo. De fato, o pequeno equipamento de lazer estava em manutenção no dia da nossa visita. Pra que tudo estivesse pronto no fim de semana que se avizinhava. Para a festa do lugar.

Sítio Palmeiras

Traídos pelo mapa que nos guiava, resolvemos partir em direção ao Sítio Palmeiras quando passavam 45 minutos das 11 da manhã. Julgávamos que seria uma viagem rápida, já que o mapa colocava o nosso destino no mesmo município. Um erro. Desses que acontecem em viagens – das mais planejadas às absolutamente improvisadas. Acabamos por rodar por quase 70 quilômetros em estradas carroçáveis e nem sempre em bom estado, já que havia chovido havia alguns dias. E mais: a comunidade fica em Granja, ao contrário do que nos indicava o guia. Timonha, distrito de Granja, foi para nossa equipe uma espécie de oásis, pelo menos no que diz respeito a água e comida. Já eram quase 14h quando finalmente encontramos algum restaurante aberto. Isso depois de muitos desencontros por estradas erradas (o GPS às vezes nos deixa na mão). Almoçamos e pegamos referências mais seguras sobre o melhor trajeto até o Sítio Palmeiras. Ali, a história seria praticamente a mesma da maioria das comunidades disputadas pelo Piauí: “Somos do Ceará, mas que história é essa!?”. Foi essa a reação do comerciante Júnior Fernandes – ou Júnior do “Bar do JR”. Dividida em Palmeiras de Cima e Palmeiras de baixo a comunidade vive sem pressa. Por volta de 15h, quase ninguém na rua. É certo que havia a concorrência da Copa do Mundo. Dali a uma hora a Seleção Brasileira estrearia na competição (o resto é história). Duas motos passaram com quatro jovens. Depois um caminhão chegou a um comércio para entregar mercadoria, ou melhor, bebidas. Debaixo de uma sinuca, um vira-lata (que não era amarelo, era tigrado, dormia). Ladeira acima, um pouco para além da Palmeira mais alta, bem no sopé da serra mesmo, se esconde o “Banho da Palmeira”. Trata-se de um conjunto de cachoeiras em sequência, cada uma formando um pequeno lago na pedra. Tanta beleza que dá quase pra entender o Piauí. Quase, apenas. Era hora de voltar…. Ah, devido ao adiantado da hora e às distâncias, tivemos de assistir à estreia do Brasil contra a Sérvia no mormaço de Cocal/Piauí. Podemos dizer que vencemos uma em terras piauienses. Pelo menos.

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