No segundo dia de visitas às áreas em disputa jurídica que tramita no STF, a Cogerh visitou as distantes localidades de Poranga, município próximo a Crateús e um dos mais atingidos pelo litígio na sua área geográfica. Desta vez, no entanto, não haveria unanimidade quanto ao desejo de permanecer cearense
Após a manhã festiva com homenagens aos 10 anos Comitê de Bacia Hidrográfica dos Sertões de Crateús, partimos, no início da tarde, para aquela que seria umas mais duras missões da expedição: visitar as distantes localidades de Poranga, município próximo a Crateús e um dos mais atingidos pelo litígio na sua área geográfica. São 67 comunidades lindeiras com a divisa que passariam para o Piauí. Tão isoladas quanto esquecidas, na sua maioria. Muita poeira, estrada de terra batida e gente. Desta vez, no entanto, não haveria unanimidade quanto ao desejo de permanecer cearense. Uma destoou: Cachoeira Grande, próxima a Pedro II/PI.
Igreja de Pedra no distrito de Cachoeira Grande, na divisa do Ceará com o Piaú
A motivação da população de Cachoeira é simples e clara: além de estar a apenas três quilômetros do asfalto, que começa na divisa com o Piauí, a cidade piauiense de Pedro II é mais desenvolvida do que a cearense Poranga. “Eu quero fazer 10 viagens a Pedro II e nenhuma pra Poranga”, assevera o comerciante Francisco Xavier. Segundo ele, faz tempo que se ouve falar no litígio na região. “Pra mim seria ótimo (passar para o estado vizinho). E, se fizer uma pesquisa aqui, garanto que 90% da população, ou mais, vai querer passar pro Piauí, garante. Eu mesmo já voto em Pedro II desde as eleições passadas”, afirma, convicto.
A comunidade está a apenas três quilômetros da divisa com o Piauí. Ali começa o asfalto que leva a Pedro II, cidade que produz pedras semipreciosas e tem comércio mais desenvolvido do que a pequenina Poranga. Outro ponto que contribui para a predileção pelo estado vizinho é o acesso. Enquanto para chegar a Pedro II viajam-se três quilômetros de estrada carroçável para depois adentrar na rodovia asfaltada no Piauí, o trajeto para dentro do Ceará, em direção a Poranga, é quase 10 vezes maior em estrada de terra batida.
“Aqui se alguém passar mal e for pra Poranga, arrisca já chegar lá morto”, comenta o comerciante. Foi um tanto chocante – embora compreensível – ouvir o pragmatismo do nosso entrevistado. Outra queixa dele está no precário sistema bancário de Poranga. “Os aposentados daqui, quando vão a Poranga pra receber os benefícios, geralmente dão com a cara na porta”, brinca Xavier. Ele explica que a lotérica existente na cidade não dá conta do volume de pagamentos. “Nuca tem dinheiro, enquanto em Pedro II, nunca falta”, compara.
asfalto que leva a Pedro II, comunidade no Piauí
Partimos então para Macambira. Trata-se na verdade de um conjunto de comunidades próximas umas das outras, mas independentes. Como havíamos partido tarde em virtude da festa do CBH dos Sertões de Crateús, o Sol já havia se posto quando chegamos a Santana, maior comunidade de Macambira. Ali encontramos Onésimo Lima, diretor da Escola do lugar. Piauiense de Buriti dos Montes, o educador está radicado no Ceará há quase uma década. “Aqui ninguém deseja mudar. Nosso sentimento aqui é de ficar como está”, garante Onésimo.
“Eu conheço a região de lá (Buriti dos Montes/PI, cidade mais próxima do conjunto de comunidades da Macambira). Nasci lá. Aqui é muito mais desenvolvido” assevera. Ao contrário da população de Cachoeira Grande, que frequenta o comércio, serviços e a rede bancária de Pedro II, os moradores das comunidades da Macambira têm como principal opção a pequena Poranga. “Daqui, em direção ao Piauí, a primeira cidade é Buriti dos Montes, que fica muito longe. Então, o acesso a Poranga é bem mais fácil”, explica Onésimo. Ele também revela que homens do Exército já passaram na região fazendo levantamentos.
Hugo conversa com diretor da Escola de Educação Infantil de Ensino Fundamental, Arimateas Francisco de Pinho, em Macambira (CE)
Muito articulado, Onésimo diz ter conhecimento de audiência pública realizada na sede de Poranga sobre o litígio. Não sabe precisar quando nem participou do evento. Mas demonstra interesse quando falamos no seminário que a Cogerh deverá realizar na região sobre o tema. “Eu entendo que, para que se tome uma decisão, a população tem de ser ouvida. Um plebiscito talvez…”, advoga o professor. Também se comprometeu em ajudar na mobilização para qualquer evento que venha a debater o tema. Passavam das 21 horas quando retornamos ao hotel. Satisfeitos por encontrar um professor com boa compreensão sobre o tema e disposto a ajudar a construir o debate na região.