Espaço para desenvolvimento de pesquisas foi reestruturado com R$ 800 mil em dois anos

Em um estado historicamente castigado pela falta d´água ou pela concentração de chuva em três ou quatro meses do ano, o reúso desse recurso natural é cada vez mais estudado como opção para os grandes centros. Contudo, apesar da necessidade, o processo ainda caminha a passos lentos — mas precisos. Em Aquiraz, a 28 quilômetros de Fortaleza, o Centro de Pesquisas de Efluentes Tratados, da Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) desenvolve pesquisas do tipo em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC).
Dos estudos já resultaram plantações de melancia, mamão, mamona e criação de tilápia que, aos poucos, revelam que a água resultante do esgoto tratado é solução não só viável, mas necessária. Ao fim do processo, a pureza da matéria orgânica é de 95% a 98%, enquanto em termos bacteriológicos, o índice é superior a 99,9%.
O Centro possui quatro lagoas de estabilização. Na primeira ainda se sente o odor do metano (um dos gases exalados no processo), mas a partir da terceira a área ao redor é verde — há aves no entorno — e, na última, é possível tomar banho, conforme assegura o técnico em saneamento da Cagece e mestrando em Engenharia Sanitária e Ambiental pela UFC, Francisco José Ferreira de Castro. Para ele, não se trata de confiança em excesso, mas de resultado de pesquisas realizadas em laboratórios da UFC.
O esgoto que chega ao local é de Aquiraz. São 300 metros cúbicos do material por hora que se distribuem ao longo das lagoas: uma anaeróbica, uma facultativa e duas de maturação. “O processo transforma matéria orgânica nociva em algo reaproveitável, sem risco para a irrigação e para a piscicultura”, garante.
Na natureza, espontaneamente, o curso demoraria até 90 dias para ser concluído. Induzido, o processo dura até 25 dias. Segundo Francisco José, na primeira lagoa a eficiência é de 70% a 80%. Terminada a maturação, onde é feito polimento no esgoto tratado, a limpeza bacteriológica chega perto dos 100%. Prova disso é que, nas duas últimas, há peixes.
“O objetivo é estabilizar a matéria orgânica sem transmitir doenças à população”, informa, acrescentando que, com as pesquisas, pode-se chegar ao desenvolvimento de uma tecnologia que permita esse processo em escala plena e real.
Conforme observa o técnico da Cagece, uma média de 50% a 60% do volume de esgoto que chega ao espaço torna-se reutilizável. É essa água que é direcionada à irrigação e à piscicultura. “Mas se for para o alimento ser consumido cru, como hortaliças, outros cuidados devem ser tomados”, frisa.
Nos últimos dois anos, o Centro passou por uma reformulação. Foram investidos R$ 800 mil que resultaram em melhorias de infra-estrutura, construção de um laboratório e adequação dos espaços às pesquisas. Isso deve alavancar os trabalhos no local.
A expectativa é que as pesquisas com fertirrigação contribuam para a adoção de práticas baseadas na Política Nacional de Reúso, respeitando-se aspectos técnicos, sanitários, ambientais e sócio-econômicos. No caso da piscicultura, os estudos começaram em maio de 2005, com a tilápia tailandesa.
Hoje há três tanques de efluentes tratados, cada um com cerca de 300 peixes e particularidades, como aeração em um, distribuição de comida em outro e alimentação com matéria orgânica em mais outro. Produtividade, desenvolvimento dos peixes e aspectos sanitários das espécies fazem parte da avaliação.
O ideal seria a reutilização de 100% do efluente tratado. Contudo, o processo é caro. Em Quixadá, a reutilização do efluente permite que o estádio do Município seja regado com água tratada. Em Pacatuba, há uma unidade em que foram investidos R$ 600 mil para que o material não vá para a bacia que atende à cidade.