Modelo transforma água recuperada em ativo ambiental negociável, sem custos para o Estado, e posiciona o Ceará como pioneiro mundial

O Ceará está dando um passo estratégico para transformar sua reconhecida experiência em gestão da água em inovação econômica e ambiental. Foi aprovada, nesta terça-feira (24), na Assembleia Legislativa do Estado, a criação do Sistema de Créditos Hídricos, um modelo pioneiro de geração, comercialização, compensação e reinvestimento de recursos voltados à segurança hídrica. O projeto foi desenvolvido pela Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) e a Companhia de Participação e Gestão de Ativos do Ceará (CearaPar).
Como funcionam os créditos?
Esse recurso opera segundo uma lógica semelhante à dos créditos de carbono, porém aplicada, com maior efetividade, à água: cada metro cúbico de água efetivamente adicionado ao sistema — por meio de reúso, dessalinização ou captação de chuva — equivale a um crédito hídrico.
O sistema, que começou a ser desenvolvido em janeiro de 2025, foi desenhado com camadas rigorosas de segurança e controle. Cada crédito é registrado em plataforma digital baseada em tecnologia blockchain — um sistema no qual todas as transações ficam registradas de forma permanente, transparente e imune a alterações. Cada token (unidade digital) representa exatamente um metro cúbico de água adicionada, auditado e rastreável.
A comercialização dos créditos será realizada como ativo financeiro em bolsa nacional e internacional, por meio de plataforma acessível, com pagamento em moeda corrente local. A geração e a aquisição de créditos são voluntárias.
A Cogerh e a CearaPar integrarão o Comitê Técnico responsável pela governança do sistema, representando o Governo do Ceará, junto aos operadores de créditos credenciados, à população no papel de originadores e uma representação de universidades.
Reinvestimento garantido
Um dos pilares do projeto é sua autossustentabilidade financeira. O sistema não exige investimento do orçamento estadual. 30% dos recursos gerados pela comercialização dos créditos serão reinvestidos obrigatoriamente em infraestrutura hídrica no Ceará.
Dessa forma, a demanda privada por compensação ambiental passa a funcionar como fonte de investimento direto em segurança hídrica para o Estado, criando previsibilidade de recursos e escala para ampliação de projetos.

Além disso, esse mecanismo assegura que o impacto local seja compensado no próprio território, beneficiando as comunidades e não apenas o balanço de compensação das empresas.
Quem pode comprar créditos hídricos?
O sistema pode atender qualquer empresa que precise fazer compensação ambiental, principalmente de setores com uso intensivo de água, como:
– indústrias de siderurgia, cimento, têxtil e química
– alimentos e bebidas, como cervejarias, engarrafadoras e agroindústria
– setor de energia
– turismo e grandes redes de serviços, como hotéis e resorts
Esses segmentos já convivem com exigências ambientais, pressão por sustentabilidade e necessidade de reduzir riscos associados ao abastecimento, atendendo exigências ambientais e de governança corporativa (ESG).
O projeto irá trabalhar articulado à política estadual de recursos hídricos, cujo órgão executor é a Secretaria de Recursos Hídricos (SRH).
“Da mesma forma que se adquire crédito de carbono para compensar a emissão de gases de CO₂, é possível fazer o mesmo com a água, que é um bem finito e deve ser tratado com responsabilidade. Usuários intensivos podem compensar seu uso, contribuindo para a preservação do planeta“, explica o Secretário Executivo de Planejamento e Gestão Interna da SRH, Ramon Rodrigues.
Para se tornar um operador credenciado, a submissão pode ser feita por meio do formulário de inscrição.
O crédito hídrico surge, assim, como uma ferramenta prática para compensar consumo, fortalecer compromissos ambientais e apoiar soluções reais no território cearense.
“O Ceará agora impulsiona uma evolução no modelo de gestão com mais de 30 anos de experiência. Essa nova solução valoriza a adicionalidade hídrica, ou seja, toda água que é efetivamente adicionada ao sistema, alcançando também pequenos sistemas, como os projetos de dessalinização instalados em comunidades do semiárido. Os recursos gerados serão direcionados para projetos estruturantes, como os alinhados aos Planos de Recursos Hídricos das regiões hidrográficas, garantindo coerência com o planejamento hídrico estadual. Assim, a água que é gerada hoje ajuda a viabilizar mais água amanhã, fortalecendo a segurança hídrica para toda a população”, comemorou o presidente da Cogerh, Yuri Castro.
A novidade valoriza o potencial de ativos cearenses, como explica Luiza Martins, Diretora-Presidente da CearaPar.
“A gestão eficiente dos ativos públicos é uma importante inovação institucional ocorrida no estado do Ceará com a criação da CearaPar. O novo Sistema de Créditos Hídricos, recém aprovado por lei, resulta dessa importante inovação que reconhece como riqueza pública os ativos ambientais e intangíveis, e coloca o Ceará na vanguarda da inovação”, afirmou Luiza.
