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Plano de Contigência de Cheias

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Plano de Contingência para Controle de Cheias no Vale do Jaguaribe PCVJ

Em uma experiência pioneira de integração institucional a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos – COGERH, a Secretaria de Recursos Hídricos do Estado do Ceará – SRH, o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas – DNOCS, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos – FUNCEME, o Serviço Geológico do Brasil – CPRM e a Defesa Civil do Ceará estão desenvolvendo atividades para imprimir uma intervenção planejada e sistematizada das ações de controle de cheias, por intermédio das Barragens Castanhão e Banabuiú. A atividade mãe é a construção do Plano de Contingência para Controle de Cheias no Vale do Jaguaribe – PCVJ , com vistas à modernização e obtenção de ganhos de eficiência operacional e a maximização dos efeitos de mitigação dos impactos das cheias.

O plano busca estudar e propor diretrizes e procedimentos operacionais para as fases de pré-estação e  estação chuvosa, e trabalha na formulação de um sistema de alerta para as áreas à jusante dos reservatórios de controle, no caso Açude Castanhão e Açude Banabuiú, únicos com esta finalidade no Ceará. O Plano resulta de uma necessidade imposta pelas características peculiares ao clima semiárido, que alterna sequência de anos com baixas pluviosidades e a ocorrência de quadras chuvosas com severas precipitações, conforme ilustra na figura 1.

 

Figura 1   Variabilidade

Figura 1 - Variabilidade Anual de Volume Afluente na Seção Jaguaribe (Fonte: CPRM)

Apesar do caráter aparentemente antagônico a cheia no semiárido é um desafio permanente, tal qual o da convivência com a seca. O alicerce do plano está fundamentado em oito pilares, figura 2, a saber: sistema de reservatórios; análise de demanda e uso múltiplo das águas; medidas de segurança em barragens; monitoramento e informação do nível de armazenamento dos reservatórios; previsão do clima; previsão do tempo; avaliação da capacidade de transporte dos rios; por fim, comunicação e articulação entre os vários órgãos públicos envolvidos no problema e a população.

  

Figura 2  Fundamentos


Figura 2- Fundamentos do Plano de Contingência para Controle de Cheias no Semiárido

É primordial a compreensão do sistema de reservatórios em cascata, ou seja, a operação dos reservatórios é sistêmica. A política de açudagem pública no semiárido estabeleceu como diretriz o atendimento aos usos múltiplos; e para alguns casos, inclusive o uso para controle de cheia. Esse último é realizado de maneira dinâmica, flexibilizando volume de controle para reduzir os riscos de perdas de água. As medidas de segurança nas estruturas geotécnicas, hidráulicas e eletromecânico dos reservatórios têm por finalidade garantir a operação das mesmas sobre esforços extras, logo é necessária vistorias periódicas e avaliação por meio de check-list antes e durante o período chuvoso. O monitoramento e a informação do nível dos reservatórios é um fundamento que garante o planejamento e conta com a informação dos vários órgãos envolvidos na operação do controle de cheia. A previsão do clima é um balizador da antecipação na operação e garantia de atendimento das demandas, as ferramentas são provenientes de modelagem numérica, estatísticas, supercomputadores, e observação do passado. A previsão do tempo é um instrumento essencial, sendo integrada com a coleta de dados – precipitação, ventos, umidade relativa do ar, pressão, temperatura, vazão, etc – com auxílio de supercomputadores faz-se simulações de tempo – 24, 48 e 72 horas à frente – em conjunto com imagens de satélite e radar.

A elaboração do  PCVJ teve início em Novembro de 2009 quando foram realizadas pesquisas na literatura técnica para selecionar material bibliográfico que abordasse o assunto. Seguindo-se à revisão bibliográfica, fez-se levantamento dos dados relativos às quadras chuvosas anteriores para permitir a análise do perfil das cheias, sua distribuição temporal e espacial e as características das condições climáticas correspondentes. Tais estudos apontaram que as cidades do vale suscetíveis a inundações, são Itaiçaba; Jaguaruana; Limoeiro do Norte; Morada Nova; Quixeré; Russas; São João do Jaguaribe e Tabuleiro do Norte. A figura 3 apresenta a hidrografia principal do rio Jaguaribe e as sedes dos municipais com problemas de cheias.

Figura 3   Hidrografia

Figura 3 - Hidrografia e sedes municipais no Vale do Rio Jaguaribe

Feitas as referidas análises, buscou-se dar os primeiros passos na definição de uma lógica de organização dos processos de decisão relacionados às intervenções de controle de cheia. Assim ficaram estabelecidos dois grandes momentos das ações de controle: o plano inicial de quadra e o plano operativo em tempo real.

O plano inicial de quadra define as condições iniciais de contorno que serão observadas para o enfrentamento da quadra na fase de operações em tempo real. Essas condições de contorno são resultantes:

a) das informações que expressam os prognósticos de previsão climática;

b) das condições de Temperatura da Superfície do Mar – TSM, do Atlântico e Pacífico;

c) das condições de armazenamento do sistema e das previsões de recarga, resultado dos modelos regionais RSM e RAMS (precipitação) em conjunto com o modelo SMAP (vazão afluente aos reservatórios);

d) e das simulações das operações de controle com as séries de afluências dos anos climatologicamente semelhantes;

Dessa forma são definidos os volumes de espera inicial, a faixa de vazões presumidamente liberáveis, os níveis mínimo e máximo operacional do nível d'água dos lagos.

A implementação se deu a partir do mês de janeiro de 2010, quando foi regulamentada a estrutura organizacional por meio de Resolução do Conselho Estadual de Recursos Hídricos, figura 4. Uma vez oficializado o esquema institucional, as suas várias instâncias passaram a operar na definição das regras operacionais, que foram aplicadas na pré-estação e durante a ocorrência da quadra chuvosa propriamente dita.

Figura 4   Resoluçã

Figura 4 - Resolução da CONERH para integração das instituições no controle de cheia

Nos meses de Janeiro a Junho o Núcleo Técnico Operacional – NTO reúne-se, periodicamente, para formular regras operacionais para a Comissão de Supervisão e Controle, instância na qual são adotadas as decisões operacionais.

A atividade de avaliação da capacidade do rio foi inicializada pela COGERH com levantamento topo-batimétrico de 98 seções transversais da calha do rio Jaguaribe, o que permitiu uma intepolação de mais de 500 seções que foram utilizadas nas modelagens hidrodinâmicas. No levantamento das seções foram percorridos aproximadamente 240 km de rios, sendo o espaçamento médio das seções na ordem dos 3 km em áreas não habitadas e com menor intervalo em áreas de adensamento populacional e/ou críticas para a modelagem dos dados.

Em seguida, de posse de plantas planialtimétricas dos municípios de Limoeiro do Norte, Russas e Jaguaruana procedeu-se a geração de um Modelo Digital de Terreno – MDT que contemplou toda área coberta pelo levantamento topobatimétricos e de cobertura das referidas plantas. Para possibilitar um modelo que contemplasse a área não levantada, foi utilizado o produto de sensoriamento remoto Shuttle Radar Topography Mission – SRTM/NASA, que resultou num Modelo Digital de Elevação – MDE.

A COGERH adquiriu ainda, imagens orbitais do satélite RapidEye que contemplam a área do estudo. Essas imagens estão subsidiando: a identificação de áreas críticas ao PCVJ; o planejamento dos levantamentos topobatimétricos e o mapeamento das modelagens de manchas de inundação. Estes trabalhos são realizados em ambiente de Sistema de Informação Geográfica – SIG, por meio do software ArcGis com extensão 3D Analyst (ESRI) e GeoHecRas (HRC) e também em software de modelagem hidráulica Centers River Analysis System – HecRas produzido pelo Hydrologic Engineering Center – HEC do U.S. Army Corps of Engineers – USACE. Ainda em fase de confecção estão sendo determinadas as áreas de inundação das zonas urbanas, nesta fase é necessário o detalhamento da planta semi-altimetrica cadastral em cada cidade. A figura 5 mostra um esboço da delimitação de risco na cidade de Limoeiro do Norte.

Figura 5  Delimitação


Figura 5- Delimitação das Zonas de Risco da Cidade de Limoeiro do Norte

Apesar do fato de que os anos de 2010 (ano de baixa pluviosidade) e 2011 (pluviosidade um pouco acima da média) terem apresentado quadras chuvosas não agressivas do ponto de vista dos picos de vazões nas seções de controle mais importantes, podemos afirmar que a experiência inovadora gerada pelo Plano de Contingência foi muito importante para o avanço da gestão de eventos críticos, pois:

•    permitiu a oportunidade do debate junto à sociedade e, portanto, ampliou a capacidade de análise e os conhecimentos de todas as esferas envolvidas nas ações de controle;

•    avançou no arranjo institucional de formulação das decisões e,

•    ampliou o conhecimento técnico sobre as características das cheias, suas peculiaridades, e suas implicações no plano operacional de controle através dos açudes mencionados.

Ler 6860 vezes Última modificação em Sábado, 28 Fevereiro 2015 15:33